DIGRESSÕES I

Nova York é uma cidade mágica. E como qualquer magia, ilude. Não que isso seja ruim. A ilusão e a fantasia são também parte da vida. Imagine se Proust nao tivesse fantasiado ao provar uma madeleine que lembrou sua infância? Sua “busca pelo tempo perdido” (nossa busca também?) não estaria aí para nosso deleite.

Precisamos da fantasia, assim também, como precisamos atravessá-la.

Se eu pudesse dizer algo necessário a quem pensa em um dia morar aqui ou qualquer outra cidade: faça perguntas a si mesmo sobre a imagem e o ideal de cidade colado a ela. É uma maneira para esvaziar as “fotografias mentais” que costumamos criar para nós mesmos para depois termos que vê-las desbotarem e desmancharem no ar. Mas antes que desmanchem, podemos lê-las e revirá-las do avesso.

Esse avesso da cidade é o que me interessa. Ele é uma construção particular, onde revelam-se as costuras, a estrutura e o lado escondido - de pouco interesse - do tecido da cidade.

Lembro agora da minha professora de inglês (uma senhora de humor único) que na última aula me mostrou animada o avesso de seu casaco, que revelava um bordado lindo e cheio de detalhes. Eu lhe disse: É tão bonito, pena que fica escondido. Ela respondeu: Pelo menos agora eu sei que existe!



Digressões iI: o avesso

2018. O ano de diálogos.

Conversas estranhas com conhecidos. Conversas agradáveis com estranhos.

Goles de café com pessoas que não checam o relógio (ou o celular), pois não têm medo de se perder no tempo de vez em quando. 

Algumas rupturas, porque se tornaram necessárias. Outros laços ficaram mais fortes com a distância que, entendi agora, é do tamanho da saudade. 

O sotaque da língua materna que entrega. Que me faz estrangeira. Isso não precisa ser um problema. Não deve.

O ano em que vi o lado perverso da saúde nas mãos dos planos de saúde. A saúde, seja ela pública ou privada, está doente.

O ano em que reencontrei a violência. Com uma outra cara, mas com o mesmo corpo estrutural problemático: políticas públicas.

Homens e mulheres delirando nas ruas. Paranoia a céu aberto. Vão tentando lidar com seus corpos, seus medos e desamparo sem acolhimento profissional. Violentados.

O ano em que me apaixonei por mulheres. Cantoras, pintoras, escritoras, pensadoras, feministas. Falarei de cinco que me marcaram em 2018.

O ano em que andei. As distâncias novamente se relativizaram. São luis, São Paulo e Manhattan. Opostos. Avessos. Iguais.

O ano da cidade vertical, em que muitas vezes precisei buscar espaços horizontais. De encontros. De por do sol. De mãos dadas. De música e crianças dançando. De ler mensagens escritas e inscritas nas paredes e muros da cidade que me despertaram a curiosidade e o desejo pela pesquisa novamente.

Elegi um parque o meu lugar favorito. Desconfio que as pessoas tem um lugar “seguro” na cidade. Um lugar para respirar. Para pensar, ainda, na vida. Esses lugares “ seguros” são essenciais em cidades grandes. 

O ano em que entendi que não se ensina a escutar o outro, a escuta se transmite.

Por fim, o ano do desconforto, do avesso  do sentido.
O avesso, às vezes, é só a revelação do que sempre evitamos. 


digressões III: Pontes