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3 de Julho de 2018

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Continuamos a leitura do texto "As cinco lições", hoje iniciando a Segunda lição.  Nesta parte, Freud continua o resgaste histórico dos que contribuíram para sua formaçao profissional. Charcot e Breuer são citados. O primeiro para mencionar sobre as histéricas na Salpetriere e o segundo para dizer sobre a "talking cure" (cura pela fala) com suas pacientes. 

Em determinado momento no texto, Freud faz uma critica ao método da hipnose, ressaltando a ineficácia da eliminacao de um sintoma, optando por deixar os pacientes falarem em estado normal. Nas suas palavras: "Tornou-se-me logo enfadonho o hipnotismo, como recurso incerto e algo místico; e quando verifiquei que apesar de todos os esforços não conseguia hipnotizar senão parte de meus pacientes, decidi abandonada-lo, tornando o procedimento catártico independente dele". 

A expressão "algo místico" chama atenção no texto. O que seria esta mística mencionada por Freud? Ou ainda, por que muitos a associam a psicanálise? 

Lembro de um episódio em que marquei um café com uma escritora de um livro que havia recém lançado. Não nos conhecíamos anteriormente. Falamos sobre vários temas e, quando chegamos no ponto em que eu disse que era psicanalista, ela comentou que acha que os analistas tem algo de uma magia. Ela própria faz análise e, na sua experiência, pode dizer que algumas frases enigmáticas do analista produzem efeito, como uma mágica. 

Achei aquilo engraçado, mas ao mesmo tempo, me preocupa pensar que os efeitos de uma analise podem ser lidos como mágica, pois a escuta é fruto de um trabalho árduo ao analista que precisa estudar e investir em sua analise pessoal. Falar em magia é estranho e engraçado, parece que exclui uma técnica, ao mesmo tempo em que enfatiza que não se trata de explicar algo ao paciente como técnica pedagógica. 

Ainda sobre a mística, outra discussão aberta no grupo foi aquilo que concerne as práticas místicas como o tarot, leitura de cartas, mapa astral, previsões dos signos, etc. Não raro ouvimos pessoas justificando atitudes pelo signo. São também chamadas de consultas as visitas ao tarólogo por exemplo. Escutamos os efeitos na fala dos pacientes. A direção vai na construção de sentido para os acontecimentos da vida, não competindo com uma análise.

O "discurso místico" ao qual apelidamos, opera na contramão do discurso do analista. Enquanto o primeiro oferece sentido, impõe significantes ao individuo, e fecha a cadeia associativa, o segundo opera do lugar que aponta para a abertura da cadeia associativa de significantes, não fecha com um sentido, produz questões e não respostas. As repostas paralisam. Uma vez que se sabe o que vai acontecer ou o motivo e os porquês das questões, nao há muito mais o que se fazer a não ser repetir e gozar do sintoma. 

A discussão no grupo avançou na ideia de que assim como nos discursos que tamponam a falta, em alguns casos, a medicação entra nesse mesmo lugar. Porém, nada disso impede o trabalho analítico. Um não exclui o outro. É possível obter conforto em determinados espaços e discursos e ir para análise falar do que não faz tanto sentido.

Mariana Anconi

6 de Julho de 2018

O tempo da água ferver

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