Contato: contact@anconimariana.com

O tempo da água ferver

Estava escuro e úmido como os esgotos de Manhattan. Me faltava o ar para correr. Todo o esforço para sair do lugar nao tinha efeito, parecia um filme em câmera lenta. Avenidas largas. Ruas compridas, entrei em uma que dava acesso ao parque. Fui na direcao das árvores e dos bancos de maneira cobertos por folhas secas. Restos de outono. Eu corria porque fugia. Fugia de uma sombra.

 A sombra tinha um estranho. Ou o estranho tinha uma sombra?  Usava um chapéu estilo anos cinquenta e carregava uma mala na mão direita. Procurei um esconderijo por entre as árvores nuas. Agachei por um instante na esperança de não ser vista pelo estranho. Com passos firmes, ele passou por mim deixando cair a mala que carregava. Aquilo tudo esparramado no chão, era meu. 

Um suspiro forte e acordei do sonho exausta como se tivesse corrido a meia maratona de Nova York. Devia ser feriado nos dias em que os sonhos não nos deixam descansar a noite. Pensei quase sorrindo nessa ideia. Se alguém me perguntasse, eu diria: Hoje é meu feriado pós sonho, não vou trabalhar. Acho que não seria uma ideia absurda, afinal sou obrigada a comemorar feriados que nao fazem sentido algum pra mim aqui.

Depois de uns minutos delirando, sentei na beirada da cama, calcei a sandália caramelo com salto grosso médio. A caminhada seria longa, mas nem tanto. Conferi se as chaves estavam na bolsa. A figura do estranho e sua sombra me fizeram companhia do metrô ao trabalho. Estranhos no metro me olhavam como se soubessem do meu desconforto pós sonho. Me senti nua.

O que um homem de chapéu fazia com as minhas coisas em sua mala? Não sei quem era. Parecia um homem, e só consegui ver o chapéu e a mala através do constraste das luzes nos postes das ruas. O que eu estava fazendo a noite na rua sozinha?

Hi Li, how was your weekend? 

Ok, ok... respondi. 

A manhã se arrastou; pesada, como se eu tivesse vivido "de verdade" aquele sonho.  O estômago doía, meu corpo reclamava. O estranho reaparecia a cada instante meu de distração. Tentei focar nas planilhas que Jane havia me cobrado discretamente ontem enquanto cantávamos parabéns para o Scott. Depois das planilhas, tentei ligar para clientes e marcar algumas reuniões. Entre uma ligação e outra o estômago ardia. Como pode algo vivido no sonho despertar uma gastrite adormecida?

Jane, posso ir para casa? Can I go home?

O que aconteceu Li ? Are you ok? 

Not really, acho que comi algo estragado no almoço. 

Oh, I get it, você comeu no trailer novamente ? Eu nao sei porque voce insiste...

Jane ia engatando uma palavra na outra, eu já nao sabia mais como acompanha-la no raciocino. Quem me dera fosse um mal estar causado pela comida. Tomaria um remedio e voilà, estaria bem. 

Posso ir?

Já em casa, preparei uma xícara com boldo e água quente; minha mãe dizia que era bom para o estômago. No tempo da água ferver, ouvia a playlist "dançando descalço" passei os olhos pela prateleira. Dancar descalço? Só se for em casa. Encontrei com Sandor Marai, De verdade. Já havia lido há uns 2 anos. 

O que é de verdade nessa vida? Nesse momento, o sonho me parecia tão real como a dor no estômago. O medo de estar sendo perseguida. O medo de estar só na cidade. O que, de fato, eram receios desde que havia mudado para este país. Será que um dia sentirei parte desta gente? Dessa pátria? 

Putz, a água está fervendo!!

Já com o chá em mãos, folheei o livro procurando as notas que escrevi. É um hábito. No canto esquerdo de uma página encontrei uma nota rabiscada. Estranho, era uma nota minha? Não lembro de ter escrito isso. 

Era minha letra. Mas não me reconheci na nota escrita. Lembrei do sonho com o estranho que carregava uma mala cheia de coisas minhas. 

Espantada, fechei o livro como se tentasse prender um inseto dentro.  

A nota dizia: A pátria é feita por estranhos. 

3 de Julho de 2018

17 de Maio de 2018

0