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O que os poetas estão dizendo?

O que os poetas estão dizendo?

Por Mariana Anconi

Seriam as redes sociais um mal necessário? A timeline do Facebook tem sido como a caixa de pandora. Uma vez aberta, todos os males e mal-ditos do planeta espirram para fora da tela do computador e nos provocam. As notícias (fakes ou não), as injúrias, as frases de efeito, as indiretas, as fofocas, os eventos e as lutas. Está tudo – ou quase tudo – lá. O pior e o melhor do humano. 

Entramos em contato com um incômodo amargo aos nos depararmos com opiniões recheadas de preconceito e ignorância, com ideais confusos. É para se assustar ainda com muita coisa, como o fato de que a noção de direitos  humanos pode se perder, se confundir com discursos velados que querem o bem. Se assustar às vezes é bom. Assim como o desassossego. Desperta e faz manter a lucidez mínima necessária para viver. 

O susto, o espanto. Isso é do contemporaneo. Questioná-lo. Enumerar os fatos, as mortes, as prisões e as liberdades injustas. O que é justo? O contemporâneo? Esse campo temporal de entrecruzamentos. O que é julgado hoje pode ser ressignificado no futuro. 

Algumas notícias atravessam os corpos como tiros. Fracassam quando tentam – a qualquer custo – matar ideias. Clarice falou em um conto dos treze tiros no criminoso Mineirinho. Estava inquieta. Como muitos agora.

Entendi que em tempos de dessassoego e susto, é sempre bom perguntar: 

O que os poetas estão dizendo?

Clarice no seu tempo disse:

"(...)Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro."

Nesse instante de ver as notícias, as "justiças", as perguntas certas são mais importantes que as respostas arranjadas. Já até sabemos as respostas quando elas vêm como silêncio. Em forma de cálice.

O que os poetas estão dizendo...

Sobre o assassinato, por exemplo, de uma pessoa que tem no nome feminino a luta por eles e elas?

Seria a morte de uma esperança ?  Dizem que a esperança é a ultima que morre. Talvez seja porque ela se desloca numa cadeia infinita de um a outro. A esperança é transmissível quando convoca outros. A esperança permanece presente.  

O que os poetas estão dizendo... 

Sobre a noticia que li no The New York Times de que as pessoas estão esquecendo sobre o holocausto

Fiquei assustada com isso por se tratar de um fato na história que trouxe dor, sofrimento e trauma. Lembro que o que é esquecido, pode se repetir. Esquecimento ou apagamento? No Brasil, o que se repete de forma velada? Nas casas, nas vielas, nas comunidades. Com outro nome, outra cara. Mesma – e velha – política que cala. 

 O que os poetas estão dizendo...

Sobre o contemporâneo? 

Quem melhor o lê? Talvez aquele que vê o obscuro, a sombra projetada da luz de um tempo. Giorgio Agambem, que tem me inspirado a voltar a ler filosofia com ânimo, diz em seu texto O que é o comtemporâneo? que só é contemporâneo aquele que mantém o olhar fixo no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro. O poeta assim o faz.

O poeta é essa fratura, é aquilo que impede o tempo de compor-se e, ao mesmo tempo, o sangue que deve suturar a quebra. (p. 61)

O que os poetas estão dizendo?

O que não se quer saber.

Eles dizem do seu lugar de inadequação ao tempo atual, e por isso mesmo, conseguem ver e dizer melhor. 

3 de Maio de 2018

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