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Um teto não-todo seu

"Homens choram" seria o texto de hoje. Até dois dias atrás eu não havia me dado conta que ele cairia bem no dia em homenagem às mulheres (08 de março). Resolvi arquivar o texto já que falava sobre um homem que chora no metrô pedindo dinheiro às pessoas à sua volta, mas estas seguem lendo os jornais e olhando para o brilho de suas telas particulares.  

Mas, antes de descartar totalmente o texto da lista de posts, fui tomada pela pergunta: O que esse senhor de 43 anos (porque ele disse a idade) continua insistindo e invadindo qualquer tentava de estabelecer uma cadeia de ideias, ao tentar escrever um texto novo? 

Hoje, no único dia reservado para homenagear as mulheres, me pergunto o que este homem fez para que me fizesse escrever sobre ele também. Naquele dia do metrô, enquanto pedia dinheiro, o homem  apontou para as lágrimas que iluminavam seu rosto num gesto como que para provar que homens choram. Dizendo em voz alta:

Vocês sabiam? Homens choram, sim!

Bom... não estamos surpresos com essa afirmação. O que será que ele queria dizer com isso? Pensei que talvez ele quisesse dizer que estava passando por cima de qualquer orgulho que restasse de si, expondo suas mazelas e suas lágrimas a quem quisesse ver. Como um ato vergonhoso.

Escondam as crianças, tem um homem chorando !

Por outro lado, na frase "homens choram, sim" estava implícita a ideia de um imaginário popular antigo, que só quem chora são as mulheres. Assim, de repente, vi o senhor desconstruindo essa que, seria uma das diferenças entre homens e mulheres. As mulheres choram, os homens não, dizem por aí. Mas ele, colocou homens e mulheres no mesmo patamar. As lágrimas não são exclusividade das mulheres. Lágrimas muitas vezes associadas a sentimentalismo, fraqueza, emoção ... Isso é coisa de mulher. 

Isso (não é) coisa (só) de mulher.

Essa semana tive a oportunidade mergulhar nos escritos de Virginia Woolf (uma escritora bem psicanalítica diga-se de passagem) que abordou sobre "As mulheres e a ficção" no livro Um teto todo seu (1929). O livro é um compilado de questionamentos com raras conclusões. Muitas digressões, frases interrompidas e várias reticências. Bem enigmático. Em algum momento da leitura nos permitimos até perguntar "mas cadê as mulheres e a ficção?  Ela não vai chegar lá?" E é então quando Woolf nos dá uma rasteira e, concluímos que esse "lá" não existe. 

As mulheres e a ficção já é uma espécie de ficção. Por vezes no ensaio, ficção e realidade se misturam, seja pelos nomes de mulheres e escritores conhecidos, seja pelas verdades ditas que se estruturam como ficção. Até chegarmos na pergunta: O que uma mulher precisa para escrever ? Questiona Woolf. Uma pergunta complexa, que ela encontra uma resposta objetiva: Para escrever uma mulher precisa de 500 libras anuais e um teto todo seu.

Um teto todo seu.

Um espaço todo seu.

Um LUGAR (não-todo) seu. 

As mulheres são muitas. Em uma. Em várias. Depois de ler Woolf descobri mais mil mulheres em mim. Descobri ainda que elas não querem ser iguais aos homens. Elas querem trabalhar, querem os direitos sociais, políticos e econômicos iguais. Querem salário (as 500 libras) e um teto. Querem poder querer tudo isso. E aí me parece haver uma confusão tamanha sobre igualdade de direitos das mulheres e igualdade dos sexos. 

"Seria mil vezes uma pena se as mulheres escrevessem como os homens, ou vivessem como eles, ou se parecessem com eles, pois se dois sexos é bastante inadequado, considerando a vastidão e a variedade do mundo, como faríamos com apenas um? A educação não deveria aflorar e fortalecer as diferenças em vez das similaridades?" 

Com as similaridades lidamos bem até. O próprio senhor no começo do texto, mesmo que tardiamente, havia se dado conta que também chorava, e nem por isso se tornava uma mulher. Enquanto enxugava as lágrimas, continuava homem.

Então, o que significa cultivar as diferenças e não as semelhanças? Sem pretender concluir ou oferecer-lhes uma pedra preciosa ao fim deste texto (por que Isso eu aprendi com Woolf), apostaria que o respeito às mulheres, que tanto ressoa na data de hoje especialmente, só nasce no espaço da diferença. 

 

 

 

Separamento

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