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Separamento

As palavras são matéria. Elas se apresentam antes mesmo que possamos pensar em dizê-las. Há momentos em que, quando escapam da boca, são capazes de produzir espanto. Geram mal entendidos a todo tempo. E claro, negamos muito facilmente quando nos entregam ou mesmo nos dão uma rasteira. 

Foi o caso de quando eu escutava uma senhora falar sobre seu casamento e as inúmeras frustrações quando deixou escapar algo muito singular. Primeiro ela disse: "Preciso me separar." Depois,  em determinado momento, no lugar da palavra casamento, disse "separamento". Essa é a manifestação da singularidade.

O que significa "separamento"?

Para a pessoa que pronunciou a palavra foi uma forma inédita de dar conta de algo muito particular sobre se relacionar. Depois de um tempo, enquanto pensava em escrever esse texto sobre relacionamentos, lembrei do "separamento". O que isso poderia nos trazer de invenção para pensar o tema? Para nós, a palavra em si não traz nenhuma certeza, traz questões que abrem caminhos tortuosos. Mas, caminhos.

Uma separação que une. Escutei "separamento" como a união de duas palavras:  separação e casamento. Então, quer dizer que, alguém encontrou um jeito de unir estas palavras contraditórias? Parece que sim. Isso nos dá uma pista sobre os relacionamentos. Escancara a complexidade dos vínculos quase a nível de um paradoxo.  É possível se relacionar se separando? Separa-se do que?

Quando isolamos a palavra separação de "separamento" podemos ir pela via do casal que se separa como no divórcio. Que inclusive, tem uma nomeação  curiosa: "separação de corpos". Mas quando os corpos foram unidos? Isso combina com a ideia de encontrar a metade da laranja. Dois fazem um. Isso faz crer que dois se completam. Dois estão colados. O vínculo amoroso faz um. Será? 

Não raro escutamos pessoas dizerem que é como se uma parte de si foi arrancada. Ou mesmo um vazio que invadiu o corpo quando do término de um relacionamento. Claro que devemos a isso uma parcela de narcisismo nas relações, mas também, ao modo como cada um se relaciona e ao que espera do outro. Um outro que construímos e nos relacionamos. 

 "Caso tenha esquecido, egrégio senhor, permita-me recordar: sou sua mulher."

 No livro de Domenico Atarnone, Laços, esta frase marca bem os ideais e expectativas de Vanda, consigo e com o marido. " Sou sue mulher": o que quer que isso signifique para Vanda, vemos que Aldo deveria saber. Entramos em contato logo nas primeiras páginas com a dor de uma esposa que se sente abandonada pelo marido. Um abandono da vida de casados, dos filhos, mas, sobretudo, um abandono dele do que seria para ela um marido e um pai para seus filhos. 

Os ideais estão presentes na vida, acontece que as vezes nos enroscamos neles também. Vamos construindo uma espécie de teia que fica rígida com o tempo. Uma teia composta por tessituras particulares, fantasias imaginárias que pode gerar sofrimento. 

Vanda escreve cartas a Aldo com raiva e tristeza cobrando dele que volte a ocupar o papel de marido e pai. Ela sofre porque mais uma vez se vê frustada. E, sobre a frustração, sabemos bem a fórmula: expectativas quebradas. A questão é quando as expectativas tomam forma de uma verdade universal. Como uma fórmula geral do que é esperado em um casamento. É possível se questionar por que nos damos ao trabalho de criar amarras se, ao que parece, em algum momento é preciso se separar delas. 

O casamento é um separamento. Preciso me separar, para me relacionar. Imaginem se ao invés de buscarmos uma rigidez com os ideais, o movimento fosse o de poder descolar do que impomos a nós e ao outro.  Na história do livro Laços, um casamento fracassa, triunfa, fracassa, triunfa e precisa se inventar sempre. Laços que ora atam, ora desatam. Ora amarraram, ora desamarram. 

O "separamento" pode apontar para o que cada um consegue se descolar na relação. A separação como término de um relacionamento é uma escolha particular. Já a separação de um eu e um outro ideal  – que criamos – é uma possibilidade para a construção de um vínculo inédito no laço. 

 

 

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