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O que o batom vermelho me ensinou sobre fazer política

Sempre achei que o modo como se vive já é em si uma atitude política - Robert Frank

 

Toda mulher tem ao menos uma história com um batom vermelho. Pode ter a ver com vaidade, empoderamento, permitir-se, mas também, com repressão, crítica, trauma, insegurança. Pensar tais histórias como experiências únicas e particulares, mas ao mesmo tempo coletivas me parece interessante.

Estávamos todos sentados no chão em um semi-círculo após o término do horário de uma disciplina na faculdade de Psicologia. Uma das alunas e colega que estava com a gente mexia inquieta em sua bolsa procurando por algo. Até que tirou discretamente o pequeno objeto da bolsa, passando-o em seus lábios. Depois, quase preparando para guardar novamente, a amiga ao lado pediu emprestado. A terceira colega que estava ao lado soltou os cabelos e pediu também. Aquilo virou uma espécie de corrente contagiosa. Uma a uma, mão em mão, o batom foi colorindo os lábios com a cor dramática. Hoje, a pergunta "por que todas decidiram passar o batom?" me fez escrever esse texto.

Para mim, o batom vermelho sempre esteve ligado ao gosto e escolha de quem usa. Nada mais. Nenhum significado atrelado a isso. Mas, fui atrás da história desse objeto e descobri uma infinidade de sentidos que lhe são atribuídos e, sim, encontrei muita história ligada a preconceito e estereótipo, mas também encontrei histórias de luta e resistência.

Mais que um objeto de consumo, ele marcou momentos históricos para as mulheres. No começo do século XX, por exemplo, aconteceu a primeira manifestação, com mulheres usando batons vermelhos no movimento Sufragista, onde lutavam pelo direito ao voto. A partir daí, o batom virou símbolo do empoderamento feminino.

O batom vermelho em si, não promove mudanças sozinho. A questão de se sentir empoderada depois de passar um batom vermelho pode ser invertida para uma mulher que está bem consigo tem o batom vermelho como reflexo disso. Uma mulher para se sentir bem consigo não precisa passar um batom (seja lá qual for sua cor). O batom ganha status de poder por alguém que o incorpora (no corpo literalmente) e o nomeia como objeto de empoderamento.

Na situação que vivenciei na faculdade, o pequeno objeto provocou diversos efeitos em cada uma de nós, não necessariamente de empoderamento. Algumas deram gargalhadas, outras se olhavam no espelho estranhando os lábios marcados com a cor, outras ficaram em silêncio após passá-lo. Ali tinha uma sentido diferente para cada uma. As mulheres ajudavam umas as outras a passar o batom, afinal de contas, não é fácil pintar os lábios nesta cor sem borrar. Além disso, algumas inclusive tem truques e segredos para tal tarefa que vão passando para outras mulheres.

Na época o que aconteceu entre nós – mulheres do curso de Psicologia – soou como uma brincadeira divertida. Na verdade, essa foi a minha interpretação. Enquanto escrevia este texto resolvi falar com algumas colegas sobre esse dia e também saber o sentido que teve para cada uma. Descobri que o batom vermelho não tinha o mesmo significado para nós.

Para uma amiga, por exemplo, ela fazia uma relação do uso do batom com se destacar no meio das pessoas, e por acaso, era o que ela menos queria: atrair os olhares para si. Mas no meio da conversa que tivemos ela se deu conta que depois que engravidou e teve seu primeiro filho, a primeira coisa que fez foi comprar um batom vermelho. 

Lembramos juntas ainda que o ato de passar de mão em mão foi impulsionado por uma conversa que começou entre algumas de nós com a ideia de que  "quem usava batom vermelho era corajosa".  Uma pergunta ficou no avesso dessa conversa:  Quem tem coragem de passar o batom? Ou ainda, "quem não tem medo de passar o batom?" Estávamos com medo de quê? Isso foi mais ou menos em 2008. Dez anos atras só. 

Fizemos política com um batom vermelho? 

Se fazer política é tomar uma posição frente as questões sociais (humanas e particulares)  através de atitudes, desconstruindo preconceitos, promovendo a discussão de temas, talvez sim. Na definição Aristotélica em que o termo político vem de “polis” que significa cidade, lugar onde as pessoas convivem e expressam suas ideias e interesses. Assim, originariamente, a política faz referência aos assuntos de interesse de todos. 

Quando alguém decide parar de comer carne por questões ambientais, ou quando deixa de comprar roupas na loja acusada de trabalho escravo, ou quando veste preto em uma cerimônia de premiação com pessoas influentes, quando alguém decide mudar o estilo de vida usando uma bicicleta para ir ao trabalho, quando um artista escreve uma música se posicionando. Isso tudo também é fazer política.

Talvez fazer política seja quando se torna possível se ver parte de um todo e perceber que o que  você faz – ou deixa de fazer – faz diferença e produz efeitos nos outros e em você. O social e o particular estão interligados por uma torção, em que interior e exterior são continuidade de um e outro. 

Qual sentido para mim hoje daquele ato na sala da faculdade? Será que aquilo que pareceu uma brincadeira a princípio, poderia ter um sentido subversivo? Agora, retomando a cena, fizemos política para nós e para quem estava presente (mulheres e homens). Nos permitimos descolar das ideias que associavam ao medo. 

O mesmo vermelho estava na boca de diferentes mulheres. Nós estávamos juntas em nossas diferenças. Não nos tornamos UMA, nem nos vimos representante de todas, mas sim, muitas que estavam se questionando.

A política é ato e produz laço. Naquele dia, o laço se deu através da palavra "coragem" que refletiu na cor vermelha nos lábios. E tenho certeza, todas que estavam lá e estão lendo o texto agora irão lembrar.

Um teto não-todo seu

Desmanual da reinvenção de si

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