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Desmanual da reinvenção de si

Estava na fila de um grande super mercado daqui de Nova York. Daquelas filas longas, mas que andam rápido. Até chegar ao caixa, havia muitas prateleiras com ítens tentadores: mini hidratantes para as mãos, chocolates veganos, vitaminas, revistas. Peguei uma revista que a principio parecia de moda, com uma moça loira, alta e magra na capa. Folheei. Procurei matérias interessantes, mas só achei propaganda. Voltei à capa e, então – para minha supresa – percebi que era uma revista de Psicologia.

Estas revistas (conhecidas por alguns como revistas de "bem estar”) sempre me chamaram atenção. Na época da faculdade por imaginar que elas teriam respostas para problemas que eu não queria lidar, mas hoje elas me chama atenção pelo incômodo que geram por suas chamadas, capas, matérias e imagens. Algumas delas se deixam levar pelos ideais da mídia: ENCONTRE SEU EQUILÍBRIO. NAO DEIXE SUAS EMOÇÕES DOMINAREM. 10 REGRAS PARA SE REINVENTAR. Comprei a revista, porque se há 10 regras de como alguém pode se reinventar, eu quero saber

A "reinvenção de si” como uma experiência particular frente a situações de desconforto, que não necessariamente geram sofrimento, coloca em questão algo inerente a todo ser humano. Algo que diz do modo particular e diferente que cada um tem de lidar com as situações. Mas o que é se reinventar?

Alguns meses atrás, entrei em uma livraria e encontrei um livro pequeno, com uma capa rosa e um rosto desenhado de uma mulher com um sorriso largo e de traços fortes. Me aproximei e agarrei o livro como se tivesse um ímã atraindo, em que eu seria o polo negativo e o livro o positivo. O título em inglês traduzi como "Você aprende vivendo” (You learn by living). Ok. Título sem nada de extraordinário. Simples.

A autora: Eleanor Roosevelt. Roosevelt… Roosevelt! Já ouvi esse sobrenome. Presidente dos EUA. Franklin Roosevelt. Então esta mulher seria sua esposa? 

O que será que Eleanor quer nos ensinar em seu livro? Com esse título, será uma repetição das revistas de Psicologia? Dicas do que fazer e não fazer com as emoções? Um manual das práticas cotidianas? 

Bem, levei o livro pra casa e fui tirar minhas conclusões. Eleanor, dá dicas, várias até. Fala de adaptação, de aprendizagem, usos do tempo, relação com crianças e adultos, maturidade, ou seja, tudo o que uma revista poderia fazer, mas tem algo de diferente.

Depois de ler capitulo por capitulo, entendi que Eleanor também se propõe a pensar uma forma de reinvenção da vida. Ela propõe o que eu chamaria de um “des-manual da reinvenção de si”. Que não se trata em ensinar como colonizar sentimentos e as pessoas à sua volta.

O que pode ser o “reinventar-se” ?

Se é uma re-invenção então se trata de uma invenção que se repete, não em seu conteúdo, mas o ato em si, de se reinventar. A todo tempo estamos nos inventando. Não é  uma "construção" pessoal, porque não há passos a serem seguidos, nem etapas a serem alcançadas, não há  término. A invenção é pra vida. 

Está do lado da desconstrução. Do lado da coragem. Sem garantias. Ela vem junto com o desconforto. 

Lembra do ímã? Polo negativo e polo positivo. É isso. Precisa de coragem, mas paradoxalmente onde há coragem, há medo também. Positivo e negativo. Juntos.

O tempo também entra em jogo. Quando há desconforto tendemos a querer voltar ao tempo anterior (passado) ou idealizar um futuro, sempre desejando outro tempo. A reinvenção de si é poder encontrar formas de viver o presente.

Reinventar-se é abraçar o diferente e o igual. 

Reinventar-se é saber que não precisa ser outro, mas uma invenção de você mesmo.

É acolher o paradoxo. Os diferentes ritmos. 

É sentir vontade de correr em determinados trechos do percurso e, em outros, caminhar quando a achar que a paisagem vale a pena.

Reinventar-se é se lançar em novos voos, mas se permitir tocar o chão, afinal é preciso pousar também.

 

Mariana Anconi

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