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Inflamada

Por Mariana Anconi

          o que inflama 

na garganta que esquenta 

arde

suplica?

O que inflama, quando deixo de expor. Na garganta impedida pelo virus que arde. O virus que invade. Impõe. Toma posse do corpo. A garganta que arranha na fala, procura palavras para nomear a invasão do outro.

O que inflama, quando descubro em mim letras perdidas, sequer conseguiram formar palavras, frases. Eu que não nasci ontem, tenho palavras em mim desde 1987. Algumas encontraram saída, outras se perderam pelo caminho. Longo.

Pede alivio, a garganta que arde. Qual melhor anti-inflamatório para os tempos de pus? O antibiótico resolve. Mata o que não presta. E o que presta. Mas se até as palavras podem  ressignificar, matar agrada a quem?

Pede alívio, a garganta impedida. Bala de menta, vitamina C, chá de gengibre, limão e mel.  Anestésico para a dor. Até quando anestesiar? Encobrir o furo, o inflamado, o vermelho da carne. Aliviar a tosse que expulsa o que estava engatado. À força. 

Quantas palavras engolidas? Quantas frases caladas? Inflamada. Resolvi começar a tirar uma por uma. Com cuidado. Letra a letra.


Deixa eu falar. 

Te dizer que não é questão de acreditar.  

Deixa eu falar. 

Velho e novo remédio.

Ja fui de anestesiar.

Hoje, me calar só vai inflamar.

 

A cidade e as mulheres

A cidade e as mulheres

6 de Julho de 2018

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