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A cidade e as mulheres

A cidade e as mulheres

Por Mariana Anconi

Duas amigas se reencontram na cidade. Estrangeiras. O sotaque da língua portuguesa de Lisboa é, talvez, a única coisa que acreditam ter em comum. Dividem um apartamento no centro da cidade, com janelas com vista para a agitação da rua.

Seus quartos são dois universos. Enquanto uma se prepara para rotina com o raiar do sol, a outra revira os olhos perdida em enigmas de sonhos e pesadelos. O descompasso entre as duas, as une de algum jeito.

Elas me inspiram a escrever agora. Teresa e Francisca. Personagens, mulheres de um filme que pouco ouvi falar: “A cidade onde envelheço”, da brasileira Marilia Rocha.

Assisti ao filme em um desses voos infinitos que nos aproximam e nos afastam de cidades, países, continentes, e pessoas. Enquanto o filme passava na telinha da poltrona à minha frente quase insuportavelmente perto, ao meu lado, na janela de vidro duplo, a concretização do que é infinito. 

*

A história ganha movimento em tempos diferentes. Tempos subjetivos, alheios aos ponteiros do relógio. Francisca ja estava morando há algum tempo no Rio e, então, recebe Teresa em seu apartamento. A intimidade entre as duas, dividida entre palavras e lacunas silenciosas, me fez pensar já na primeira cena do filme que poderiam ser um casal. Essa dúvida perde importância a medida que as duas escrevem seus caminhos juntas; e separadas.

O jeito como cada uma vive a cidade e os espaços que escolhem ocupar delineia uma questão que poderia ser secundária. Porém, não me escapa. Se destaca como um letreiro em neon: as mulheres na cidade.

Elas circulam. Às vezes sozinhas, em pares, em grupos. Se misturam em aglomerados. Nem sempre passam despercebidas. Descobrem palavras que marcam uma cidade e atravessam os corpos, os cabelos, as pernas, os olhos.

A cidade tem olhos. Nos prédios, nas calcadas, nas janelas, no ônibus. Olhos que ora espiam, invadem, ora acolhem as mulheres que resolvem circular.

Teresa e Francisca. Duas mulheres e mais mil em cada uma delas. No Rio de janeiro (des)encontram seus ritmos e passos.

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O sotaque português, estranho aos brasileiros, não aparece no filme como obstáculo às personagens. Ao contrário, vemos o estranho (as estranhas) misturarem-se aos nativos. Mais do que se comunicar, estabelecem laços. O nativo é aquele que nasce na cidade. Não significa que ame o lugar, que o ocupe ou nem que viva nele. Está relacionado ao nascimento, nem tanto ao sujeito que constrói e circula na cidade, junto às diferenças.  

Nada melhor que pensar essas diferenças falando do lugar de estrangeira. Os significantes que carregamos conosco – querendo ou não – se referem ao país de origem, mas não só. Ao dizer que sou brasileira, automaticamente desperto algo no interlocutor que não necessariamente tem a ver comigo, mas com a imagem que ele tem do Brasil.

Uma imagem. Como uma fotografia. É fixa, mesmo que haja uma tentativa de capturar o movimento. Existe uma estranheza quando significantes como (povo alegre, divertido, brincalhão) atravessam o tempo, fixando-se no imaginário, alheios às coisas que estão acontecendo no país. Alheios ao movimento.

Outro dia decepcionei uma colega alemã, quando não correspondi à sua imagem construída do povo brasileiro. Eu nao me encaixei na descrição que tinha em mente. Era como se ela retirasse uma foto do bolso e colocasse ao lado do meu rosto. Tentando encontrar as semelhanças. Fracassou, me tornei mais estranha ainda.

A todo momento tentamos encaixar o outro na imagem/fotografia que temos sobre ele. Carregamos estas fotos e imagens, como se fosse possível capturar a essência do outro. Queremos o match! E quando nao acontece o que fazemos? Descarta-se? Aponta para uma forma de evitar o estranho, o diferente e o imprevisível.

*

Teresa e Francisca vivem a cidade e não na cidade. É quase como um coquetel de sentimentos habitar um lugar outro. Há presença da alegria singela em algumas cenas, como o encontro com amigos em que todos almoçam, bebem e riem juntos. 

Em outras cenas há a presença da melancolia nas formas de habitar a cidade e de se relacionar. Há momentos de descobertas sobre o outro em nós mesmos. Francisca tem medo de se perder, Teresa medo de se encontrar. Apesar do medo, coragem nas duas.

A alegria aparece quando avançam e recuam nas possibilidades do lugar de estrangeiras, ou melhor: estranhas. Construção particular.

A melancolia surge para os momentos de despedida. De nós mesmos e da cidade. Mesmo quando não se muda para outro lugar.

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