Duas amigas se reencontram na cidade. Estrangeiras. O sotaque da língua portuguesa de Lisboa é, talvez, a única coisa que acreditam ter em comum. Dividem um apartamento no centro da cidade, com janelas com vista para a agitação da rua.

Seus quartos são dois universos. Enquanto uma se prepara para rotina com o raiar do sol, a outra revira os olhos perdida em enigmas de sonhos e pesadelos. O descompasso entre as duas, as une de algum jeito.

Elas me inspiram a escrever agora. Teresa e Francisca. Personagens, mulheres de um filme que pouco ouvi falar: “A cidade onde envelheço”, da brasileira Marilia Rocha.

Assisti ao filme em um desses voos infinitos que nos aproximam e nos afastam de cidades, países, continentes, e pessoas. Enquanto o filme passava na telinha da poltrona à minha frente quase insuportavelmente perto, ao meu lado, na janela de vidro duplo, a concretização do que é infinito. 

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A história ganha movimento em tempos diferentes. Tempos subjetivos, alheios aos ponteiros do relógio. Francisca ja estava morando há algum tempo no Rio e, então, recebe Teresa em seu apartamento. A intimidade entre as duas, dividida entre palavras e lacunas silenciosas, me fez pensar já na primeira cena do filme que poderiam ser um casal. Essa dúvida perde importância a medida que as duas escrevem seus caminhos juntas; e separadas.

O jeito como cada uma vive a cidade e os espaços que escolhem ocupar delineia uma questão que poderia ser secundária. Porém, não me escapa. Se destaca como um letreiro em neon: as mulheres na cidade.

Elas circulam. Às vezes sozinhas, em pares, em grupos. Se misturam em aglomerados. Nem sempre passam despercebidas. Descobrem palavras que marcam uma cidade e atravessam os corpos, os cabelos, as pernas, os olhos.

Os olhos da cidade. Nos prédios, nas calcadas, nas janelas, no ônibus. Olhos que ora espiam, invadem, ora acolhem as mulheres que resolvem circular.

Teresa e Francisca. Duas mulheres e mais mil em cada uma delas. No Rio de janeiro (des)encontram seus ritmos e passos.

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O sotaque português, estranho aos brasileiros, não aparece no filme como obstáculo às personagens. Ao contrário, vemos o estranho (as estranhas) misturarem-se aos nativos. Mais do que se comunicar, estabelecem laços. O nativo é aquele que nasce na cidade. Não significa que ame o lugar, que o ocupe ou nem que viva nele. Está relacionado ao nascimento, nem tanto ao sujeito que constrói e circula na cidade, junto às diferenças.  

Nada melhor que pensar essas diferenças falando do lugar de estrangeira. Os significantes que carregamos conosco – querendo ou não – se referem ao país de origem, mas não só. Ao dizer que sou brasileira, automaticamente desperto algo no interlocutor que não necessariamente tem a ver comigo, mas com a imagem que ele tem do Brasil.

Uma imagem. Como uma fotografia. É fixa, mesmo que haja uma tentativa de capturar o movimento. Existe uma estranheza quando significantes como (povo alegre, divertido, brincalhão) atravessam o tempo, fixando-se no imaginário, alheios às questões contemporâneas ao país.

Outro dia decepcionei uma colega alemã, quando não correspondi à sua imagem construída do povo brasileiro. Eu não me encaixei na descrição que tinha em mente. Era como se ela retirasse uma foto do bolso e colocasse ao lado do meu rosto. Comparando, tentando encontrar as semelhanças. Fracassou, me tornei mais estranha ainda.

A todo momento tentamos encaixar o outro numa imagem/fotografia que carregamos com a gente. Carregamos estas fotos e imagens, como se fosse possível capturar a essência do outro. Como se fosse estática. Queremos o match! E quando nao acontece o que fazemos? Descarta-se? É tudo um jeito de evitar o estranho, o diferente e o imprevisível.

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Teresa e Francisca vivem a cidade e não na cidade. É quase como um coquetel de sentimentos habitar um lugar outro. Há presença da alegria singela em algumas cenas, como o encontro com amigos em que todos almoçam, bebem e riem juntos. 

Em outras cenas há a presença da melancolia nas formas de habitar a cidade e de se relacionar. Há momentos de descobertas sobre o outro em nós mesmos. Francisca tem medo de se perder. Teresa medo de se encontrar. Apesar do medo, coragem nas duas.

A alegria aparece quando avançam e recuam nas possibilidades do lugar de estrangeiras, ou melhor: estranhas. Uma construção particular.

A melancolia surge para os momentos de despedida. De nós mesmos e da cidade. Mesmo quando não se muda para outro lugar.